
Andreia Donadon Leal
MARIANA [ ABN ] — A cidade de Mariana perdeu mais uma figura ilustre na educação e cultura da região dos Inconfidentes: Marly Moysés.
Para aqueles que não tiveram o privilégio de conhecer a elegante educadora, Marly foi a primeira mulher a ocupar uma função na Academia Marianense de Letras, secretariando a primeira reunião e redigindo a sua primeira ata. Em um mundo que historicamente silenciou as mulheres em espaços intelectuais dominados por homens, essa conquista representa um ato de plena resistência feminina. Marly fez parte da fundação dessa importante instituição literária da Primaz de Minas e está eternizada como uma de suas fundadoras.
Contudo, sua contribuição vai além desse marco. Marly escreveu inúmeras crônicas e artigos para jornais da cidade e região, expressando sua cosmovisão de mundo, sua paixão pela cultura, seu amor por Mariana e suas reflexões sobre o cotidiano. Além de textos bem engendrados, ela produziu poesias que se destacam pela singeleza e leveza. O poema “À Criança” revela a tristeza da autora ao constatar que muitas crianças não conhecem as belezas da natureza, como os riachos, os bosques verdes e as frutas silvestres. Para essas crianças, a oferta se limitou a filmes de TV, motos, chicletes e refrigerantes. Marly finaliza seu louvor à infância, reconhecendo a importância do lúdico para as crianças:
“Ah, minha doce criança! Só muito amor
pode compensar-te
pela perda
da beleza
que a gente não soube
guardar para ti.”
Escrito em 1983, esse poema já refletia uma mudança no universo infantil. Em tempos de redes sociais, notamos uma perda ainda maior do faz-de-conta na vida de meninos e meninas. Hoje, não se fala mais de filmes de TV, mas sim de telas de celular e de uma conexão excessiva. A saúde mental é uma preocupação crescente, assim como a busca por atividades manuais e por interações presenciais. Não pretendo explorar os inúmeros desafios de viver no terceiro milênio, marcado por algoritmos e conexões digitais. Com o tempo, outra mulher ocupará nossos espaços nos jornais, nas redes sociais, na literatura, na cultura e nas academias. A vida é assim, e que bom que é assim: sem monopólios, sem ocupações eternas em lugar algum!
Retornando ao foco de nossa reflexão semanal, Marly foi uma educadora apaixonada e uma figura central na formação escolar da região dos Inconfidentes, dedicando sua vida a moldar o futuro de inúmeras gerações. Como cronista, compartilhou suas observações e reflexões sobre a vida e a cultura local, enriquecendo nosso patrimônio cultural e literário. Sua luta incansável pela valorização do patrimônio artístico, educacional e cultural de Mariana a tornou uma defensora exemplar de nossa identidade e história.
O legado que Marly deixa é inestimável; seu compromisso com a educação, sua sensibilidade artística e sua generosidade ao compartilhar conhecimento e experiências tocaram a vida de muitos. Marly Moysés será sempre lembrada como uma mulher de coragem, visão e amor pela educação e pela cultura. Sua memória viverá em nossos corações e em tudo que ela ajudou a construir.
Até breve, estimada confreira Marly Moysés. Encerramos esta coluna com seu belo texto, clamando por Alphonsus de Guimarães, numa doce súplica:
(…) Responde-me, Alphonsus, eu te suplico: imaginas-te, quando escreveste (…) “Vivo de mortas alegrias, sempre a sonhar!” (…), que poderiam teus versos ser entendidos como um estímulo à alienação? Eu sei que não, poeta! Quando colocaste nos lábios da princesa, nos últimos versos do teu poema-hino:
“Agora bem sinto no peito áureos brilhos/ aos doces afagos da voz dos meus filhos, mais bela que outrora eu irei ressurgir”, falavas de esperança, da prevalência da comunhão homem-natureza sobre quaisquer outros interesses, entre os quais o econômico, para o bem da própria humanidade. Perdão, poeta! Descansa em paz. Não foste tu que falhaste em tua profecia. Fomos nós, todos nós! Por nosso despreparo, nossa frágil consciência de cidadania, nossa omissão e nosso silêncio, nossa cegueira, nossa submissão, nossa acanhada visão de mundo. Nesses mais de três séculos nós, cidadãs e cidadãos usurpamos, por ignorância ou por má fé, das gerações que virão, tudo aquilo que nos foi gratuitamente dado pela natureza. Nossa dívida, poeta, é impagável. Tanto com as gerações que irão nos suceder, quanto com o planeta que nos abriga…. Até quando?
Andreia Donadon Leal – Deia Leal
Doutora em Educação (Saúde)
Mestre em Literatura
Especialista em Artes Visuais e Arteterapia
Sonho V
Imagens são sonhos afetos
colam nas telas
nas fotografias
e lembram alguma coisa
de esculturação natural
imagens são sonhos afetos
a beijar uma superfície