
Dr. ELIAS MURAD
BELO HORIZONTE [ ABN ] — O governo anuncia que vem aí, mais uma vez, o horário de verão. O argumento é o de sempre. Aumento da demanda de energia elétrica neste período e escassez de chuvas, prevendo-se colapsos no fornecimento de energia elétrica, principalmente no Sudeste do País.
O curioso da estória é que as últimas chuvas foram abundantíssimas em todo o País e as represas, como as de Três Marias e Furnas, estão cheias ao máximo, quase transbordando em suas margens com um estoque de águas que será suficiente provavelmente até as próximas chuvas. Como se sabe, não é possível estocar energia, o que se pode estocar é a água que a produz.
Dezenas de trabalhos já foram escritos e publicados mostrando os maleficios para o organismo humano provocados pelas mudanças bruscas do fuso horário o que leva a alterações na produção do teor do hormônio melatonina que, como se sabe, regula o ciclo circadiano de dormir-acordar dormir. 0 pior da estória, é que as maiores vítimas são as crianças, com por exemplo cefaléias, intranqüilidade, irritação, mal-estar geral e distúrbios do sono.
Tudo isso seria aceitável, como sacrificio – que foi exatamente o que ocorreu em meados da Guerra Mundial passada quando ele foi implantado pela primeira veze e o País se empenhava no seu esforço bélico.
Agora não há nada disso e, pelo que se sabe, as possiveis quedas na produção de energia estão apenas dentro dos cálculos conservadores de baixa queda pluvial nos próximos meses, o que pode ocorrer ou não. E lógico que não devemos esperar que São Pedro seja também complacente este ano, como foi no ano passado, enviando chuvas prematuras e copiosas. Há, no entanto, algumas opções realistas que não devem ser descartadas.
Uma delas é comprar energia do país vizinho e parceiro do Mercosul, o Paraguai, de cuja cota, como membro societário de Itaipu, ele não gasta nem a metade. Pode, portanto, facilmente vender-nos o seu excesso e a preços bem razoáveis.
Outra possibilidade é estabelecer-se uma ampla campanha educativa a fim de ensinar o consumidor a fazer economia de energia elétrica, não só em casa, como também no trabalho: apagar as luzes desnecessariamente acesas, desligar os aparelhos de ar condicionado nos dias de clima ameno, o que, entre nós, é comum nessa época do ano. Basta observar à noite- ou mesmo de dia- como são feericamente iluminados os grandes prédios, muitos com as luzes acesas mesmo em horário fora do expediente. Por outro lado, uma alternância das propagandas e letreiros luminosos – principal mente nas grandes cidades- poderia ser uma tima fonte de economia. Enfim, há dezenas, senão centenas de alternativas sem que seja necessário submeter o povo a esse execrado horário deverão.
Mas, tudo isso dará muito trabalho. Muito mais fácil é, por decreto, de uma penada, mudar o ciclo circadiano dos brasileiros, alterar a produção do hormônio melatonina de seu organismo obrigando-o a adaptar-se, de repente, a um novo ciclo de dormir-acordar dormir. Se isto pode causar algum mal ao seu organismo, será um pequeno sacrificio em beneficio da indústria de seu País que necessita de mais energia para produzir mais, vender mais e, evidentemente, consumir mais. Salve o consumismo. A saúde que se dane…